quinta-feira, 5 de junho de 2014

A OVELHA ALEGRE



O rio exala um odor que para quem se habitua já não é fedor. O rio tem quilómetros e quilometros. A vida também tem quando não caída na armadilha do tirar a vida com a facilidade de quem bebe um copo de água.

Semáforos aéreos serão construidos mais tarde ou mais cedo. Lá em baixo a realidade de uns não é a realidade de outros.
Realidades assépticas exalando o ar rarefeito de percursos empacotados para responder empacotadamente a questões assépticamente rarefeitas.

De lá para cá pessoas vendem e compram objetos de plásticos com quebralidade fácil. O preço da vida está em promoção.

Numa pausa de um intervalo concedido num pacote asséptico de respostas por perguntar, o homem vagueia pela rua recitando poesia. Aline levanta os olhos.

O homem que vagueia pelas ruas de ar rarefeito expira poesia sonhando quilometros de vida respiráveis. Apresenta-se como a ovelha alegre da familia que vive uma vida de empacotados empreendimentos. O homem que na rua vagueia movendo-se a poesia assume que é uma ovelha, mas alegre e que hoje ficou alegre porque alguém ergueu os olhos para escutar as suas palavras que vagueiam como perfume num ar plastificado de quebrantilidade fácil.

Ana Piu
Brasil, 31.5.2014

ilustração: Eric Lovric



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