terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CASA DE PORTUGAL

Meu querido diário espero que continues a ser querido para mim e eu para ti. Não fiques zangado com tanto desabafo que trago no regaço e no cachaço. Meu querido diário tantos segundos, minutos, horas, dias e anos para viver. Para viver e me
surpreender com aquilo já lá estava ou com aquilo que passou a estar. Com aquilo que já lá estava e que nunca se reparou ou que se reparo, mas normalizou-se. Mais os dias são circulares, assim como os segundos, os minutos e as horas. Ainda bem que existes meu querido diário. Ainda bem que existimos aqui. Aqui ou na Babilónia ou na Estónia, na Macedónia ou na Califórnia.
Não te contei, meu querido diário, mas ontem entrei numa daquelas casas de Portugal que existem no estrangeiro. Não te zangues se cá dentro, no meu regaço, a coisa fica um cangaço. Mas meu querido diário eu entro numa casa daquelas porque supostamente tenho de falar com um tal de Cônsul. Lá vou eu. O cônsul está doente há três meses e não tem ninguém para o subestituir. Dou pulinhos de contentamento! Agora sim estou numa casa digna do seu nome. Não me leves a mal, mas eu cá sinto um fru fru no plexus solar do meu ser quando entro em Embaixadas Poruguesas, Centros Culturais Portugueses mais as ditas Casas Portuguesas. Seja em Cabo Verde, França, Dinamarca, Brasil. Garanto-te meu querido diário que todas elas criam em mim uma sensação de falta de pretensa.

Posso desabafar contigo?... Sinto-me, por vezes, decepcionada de ter a nacionalidade que tenho. Não me sinto representada a todos os níveis. Jurídicos, culturais and so on. O marasmo desses lugares fazem-me ter vontade de fugir e levar comigo a minha história pessoal fantasiada ou não aos quatro ventos. O meu pai é sueco, refugiado chileno exilado nos anos 70. Minha mãe francesa, de origem marroquina, ativista do Maio de 68. Os dois encontraram-se no Woodstock em 69. Vieram ter a Portugal quase quase no apogeu dos ventos de mudança. Em 73 nasci e em 74 deu-se a festa dos cravos. O que veio a seguir tá a vista agoar. Bom, mas nasci n um país bonito, com sol, onde se come bem e há pessoas muita porreiras, apesar de algumas terem vergonha de serem felizes. Meu querido diário achas que esta história é convincente?
Ontem quando entrei na Casa de Portugal nem um elemento que me fizesse sentir em casa. Sei lá! Tem tanta coisa! Umas garrafitas de tinto do Alentejo ou do Douro. Cheiro a queijo da Serra da Estrela. Murais do Almada Negreiros ou invocações à pintora Paula Rego. Opa e e que tenho tantos amigos artistas plásticos (qual a diferença entre arte e artesanato?) músicos, atores. Mas bom, vamos lá pelo óbvio. Uma guitarrada portuguesa do Carlos Paredes. Madre Deus... A bela cerâmica tradicional ou urbana que se faz por todo o país. Nãããã! Nada disso. Apenas um painel de azulejos com a Nossa Senhora de Fátima e os três Pastorinhos e uma grande loja de rendas do Ceará, por sinal bem bonitas. Mas quando eu entro nestas instituições ditas portuguesas sinto desalento. É o espelho dum país que não valoriza quem lá nasceu, quem lá cresceu, quem algum dia quis que o seu país fosse diferente de valores provincianos e caducos (atenção meu querido diário! Descentralização não é o mesmo que provincianismo! Posso viver no campo e ser cosmopolita.)

Meu querido diário tantas vezes confirmo que quase ninguém no planeta terra conhece o que se faz , pensa-se e cria-se em Portugal. Portugal não é só fado nem Fernando Pessoa. Mas, meu querido diário, temos sido educados para não nos valorizarmos. E eu até acho que se aquela história dos pastorinhos convenceu tanta gente a minha acerca das minhas descendências também convence. Pelo menos o meu encontro com os trópicos está realizado. As minhas descendentes trazem Angola e Brasil na derme. Nesse caso posso me sentir do mundo. Posso não posso? Claro que posso! Conta as viagens de inter rail e afins. Os tais dos seminários na Europa. Sim, porque em Portugal o pessoal não pertence realmente à Europa. Porque lá fora é que é! Mas olha, gosto de ser quem sou. Não tenho problemas nenhuns de abdicar, por momentos, do meu sotaque para fazer-me compreender. Como uma senhora que apontado para um aterro dizia:”Tudo isto aqui é sonho. O que está cá dentro da nossa cabeça é que é real.” No fim de contas as fronteiras somos nós próprios que as criamos dentro de nós. Mais coisa menos coisa. Não achas meu querido diário?
Música: Deolinda, banda portuguesa com a vocalista Ana Bacalhau

A piU
Br, 11/12/12
 

deolinda - garçonete da casa de fado (live @ cinema são jorge, lisboa) 

 http://youtu.be/QbZ-UvBrlCs

 

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