terça-feira, 7 de junho de 2016

OSVALDO SIVIRA

Osvaldo já teria os seus 60 anos, mas aparentava ser mais novo. Um pouco mais novo, não muito, digamos. Dizem que os negros sempre aparentam ser mais novos...
Todos simulavam levá-lo a sério, mas de facto ele andava aos caídos. No final da semana era o momento que podia comer e beber sem se preocupar.
Osvaldo já pouco se questionava. Se o fizesse ficaria triste e indignado. E o que esperavam dele era alegria e bons momentos. Era essa a sua rotina: quebrar a rotina daqueles que não se preocupavam demasiado sobre o que iriam comer ou até mesmo onde dormir. Se no fundo sabia que isso não era justo, de não lhe darem a mão para sair daquela situação, por outro lado tentava convencer-se que ninguém tinha a obrigação de fazer algo por ele.
Tocava em noites de lua cheia, de quarto minguante, quarto crescente e mesmo quando a lua não se via. Osvaldo Sivira tocava na casa dos ricos e em botecos para os ricos darem aquele democratizada. Ele era como que a mascote. Uma mascote querida, mas carente de um abraço com o coração todo.
As festas iam até altas horas. Entre um " não posso ficar, moro em JassaNão!" e " viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar!" a madrugada ia entre olhares lânguidos e desejos embriagados, assim como risos despreocupados.
Osvaldo tocava, comia e bebia. Esse era o seu reconforto da semana. Assim que se punha a calcular no que se gastava numa só festa voltava ao seu violão para afugentar possíveis revoltas.
Nunca mais se ouviu falar de Osvaldo. Osvaldo Sivira voltara para as margens da margem da sua existência, porque lá encontraria tantos outros como ele. Cansara-se das festas regadas a cerveja e espetinhos de coração de galinha e coxinhas de mandioca com carne seca em que nas eventuais conversas a improdutividade do assunto sobre reforma agrária e imposto de renda era mais conversa de senhores que leem jornais e assistem tv mas não interpretam o entorno palpável. Mas mesmo assim Osvaldo Sivira sentia gratidão pelas madrugadas bem passadas e futilmente divertidas.
Ana Piu
Brasil, 06.06.2016

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