quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

PIUZADAS SOBRE O BB - série: sorria! você está sendo imaginado!

 

Caroxs leitores, uns amigos, outros conhecidos e outros nem uma coisa nem  outra, hoje vou aqui abrir um pouco da minha vida, um tanto do meu coração. Estão curiosxs ou nem por isso? Seja como for, nesta era do reality show, milk shake do público e do privado vou em frente. Vou-me expor, pronto! 'Tá decidido! Outro dia o face broncas informou que eu sou geradora de conteúdos e que assim posso chamar muitos seguidores. 'Mazolhem' eu cá sou como Brian dos Monthy Pythons, além de que muita gente junta seguidista faz-me ficar reticente eu fico com a dúvida se o meu sorriso está dentro do padrão dos influenceres... 

Pergunto isto porque confesso, sim confesso, que assisti ao segundo episódio do BBB presuadida por uma jovem adolescente que quer estar a par do que se passa e não ficar, obviamente, para trás nas conversas de amigos e colegas de escola. Assim que vi aquele pessoal todos agarradinho aos pares com uma anilha tipo pombo a avaliar quem tinha siontonia ou não com quem, surgiu uma pergunta existencial, filosófica sim: " O requisito para entrar o BBB é terem todos a mesma placa dentária? O mesmo sorriso?" GALERADA! Aquele pessoal tem as bocas todas iguais!!! Explicaram-me que vão ao dentista, gastam um dinheirão para transformar a placa dentária num sorriso plástico e padronizado!!! ESTOU CHO-CA-DA. Sim, sou retrô! Não acompanho esse tipo de ventos de mudança. Não, não é a idade. Há 23 anos aparecia o BB em Portugal e o choque foi idêntico! Pessoas de carne e osso dentro duma casa a fazerem-se delas próprias, mas sendo estimuladas para a intriga, a maldicencia, a fofocagem e o grande público a tomar partido delas como se fossem ao mesmo tempo da familia e personagens de novela. Ao inicio, na casa, são todos muito amigxs mas a coisa tá feita para desandar entre o mediático e o imediático. É o que anestesia e vende.

Como é que alguém pode saber, definir se sente e tem sintonia com outro alguém numa primeira abordagem? Principalmente quando se trata dum produto televisivo? Ok, é um jogo. Entendi... Quase entendi, mas não tudo. A cultura do imediato, das conclusões precipitadas deixam-me apreensiva. Podemos conversar com profundidade e presencialmente sobre a nossa vida com alguém e podemos nunca nos conhecermos mutuamente nos pontos mais importantes, digamos, da nossa vida. Há uma semana e meia atrás postei umas fotops de 2004/5 com o meu ex parceiro, pai da minha segunda filha para anunciar o seu falecimento e homenagear alguém que fez parte da minha vida com todos os altos e baixos. Duas amigas conhecidas distintas comentaram que achavam que era um amigo meu e não o pai da minha filha ex parceiro; Mesmo com as fotos nossas lá.. Fiquei dias a pensar nisso. Sobre o facto dele ser negro e talvez para algumas pessoas é inusitado eu ter filhas com pessoas com outro tom de pele e cultura, no caso angolana, e como o nível de intimidade uns com os outros nunca é pleno, mesmo com quem tenhamos partilhado momentos muito intimos. Se nós nem sempre nos auto conhecemos o suficiente, como pretendemos afirmar que sabemos muito ou tudo acerca da outra pessoa e ainda temos ou não sintonia como quem junta água com Tang? Em suma, tire o seu sorriso do caminho que eu quero passar com o meu vigor!

A Piu

Br, 19/01/2023

sábado, 7 de janeiro de 2023

OUTROS ENCONTROS

De forma inédita ou quase inédita, em 2022 a 59ª edição da mais antiga bienal de arte, que acontece em Veneza, dá prioridade a artistas mulheres, negros e indígenas. Cecilia Alemani, a curadora italiana, radicada em Nova York, pede emprestado o título do livro Leonara Carrington Il latte dei sogni (O leite dos sonhos, em português) para lançar a temática em que é descrito um mundo mágico onde a vida é constantemente reformulada. Há que ressaltar ainda que pela primeira vez a curadoria está a cargo de uma mulher que optou por 80% dos expositores serem de mulheres artistas. Em entrevista perguntaram-lhe se era uma Bienal de mulheres ao que a mesma respondeu contundentemente que nunca ninguém perguntou se as outras bienais eram de homens. Devido ao confinamento do Covid-19, a curadora viu-se “obrigada” a conhecer os artistas convidados, ainda vivos, virtualmente. Estas reuniões chamaram a atenção de Cecilia Alemani para três temas principais. O primeiro foi a representação dos corpos e suas mutações/ metamorfose. “ Para dar conta deste debate, a curadora priorizou obras que questionam a representação hegemônica do corpo humano (ocidental, masculino e branco) consagrada pelos modelos iluministas e renascentistas. Daí a opção dela em privilegiar artistas mulheres e artistas não-binários. (Lopes, 2022). O segundo tema é a relação entre indivíduos e tecnologia. O terceiro tema é a relação entre os corpos e a terra. A curadora convida assim artistas que projetem nas suas obras o fim do antropocentrismo e da hierarquia entre os seres humanos e as demais formas de vida. (Lopes, 2022). Alemani traz, então, para a Bienal artistas como o indígena brasileiro Jaider Esbell (1979/2021), a chilena Violeta Parra (1917/1967), a portuguesa radicada em Londres Paula Rego (1935/2022), a haitiana Myrlande Constant, as brasileiras Lenora de Barros, Solange Pessoa e Rosana Paulino, entre outros.
"Minha arte é sobre a tentativa de entender o local ocupado pela população negra no país e com um recorte mais específico que é o do local ocupado pela mulher negra no tecido social brasileiro." (Rosana Paulino em entrevista à revista Bravo). Nascida em 1967, em São Paulo, Rosana Paulino tem bacharel em gravura pela Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, com especialização em gravura pelo London Print Studio e doutorado em Poéticas Visuais pela ECA/USP. A artista possui obras em importantes museus e tem participado ativamente de diversas exposições tanto no Brasil como no exterior. Rosana aborda nos seus trabalhos temas que até hoje ainda são bastantes omitidos tais como a escravidão, o papel do negro na sociedade e questões de gênero. Para a artista com uma vasta obra reconhecida internacionalmente o seu foco é trabalhar questões que a incomodam enquanto mulher negra brasileira e não apontar caminhos. Se para muitos a sua obra revela e confirma a existência e resistência de povos que foram desenraizados, escravizados e silenciados também vem confirmar que na História da Arte e no circuito artístico ainda há uma lacuna e um longo caminho a percorrer no que diz respeito à visibilidade e reconhecimento de artistas fora da lógica hegemônica do homem branco ocidental, não arrisco em dizer heterossexual, porque muitos eram e são homossexuais assumidos ou não.
Aparentemente a sua obra não foi rotulada em Veneza de estetização do sofrimento como apontaram a obra “ Barco que afundou com imigrantes africanos de Christoph Büchel em 2019, na 58ª edição. Fica então a questão: trazer para a arte o que nos incomoda e por incomodar terceiros pode ser criticada desse modo pois quem vê a obra é um público rico europeu e branco? São justamente esses que precisam de ser lembrados que por detrás de todo o glamour europeu existem tragédias a acontecer do qual os mesmos ainda são responsáveis. Interessante seria colocar em diálogo a obra de Rosana Paulino com vasta obra da artista portuguesa Paula Rego que se radicou em Londres aos 16 anos em plena ditadura fascista portuguesa, pois segundo o seu pai Portugal era impróprio para meninas crescerem e se realizarem. Quais os pontos que as unem e os espaços ainda a percorrer entre ambas no que diz respeito às questões de gênero, de democracia e ausência da mesma e colonialismo? No entanto, pode-se considerar a sua exposição “ Atlântico Vermelho” no Padrão dos Descobrimentos em Lisboa através da EGEAC Cultura em Lisboa em 2017 possa ser um pequeno passo nesse reparo histórico entre Portugal e os territórios e povos por este colonizados. A exposição ao ser apresentada no Padrão dos Descobrimentos é bastante significativo pois foi dali que saíram as caravelas e este monumento é construído como uma exaltação a esse projeto mercantilista que durou séculos, sendo responsável pela maior escravidão de todos os tempos e genocídio continuado até à atualidade, agora pelos países ex colonizados. Como portuguesa considero que as instituições do meu país podem e devem assumir a responsabilidade de resignificar narrativas e abrir espaços democráticos para narrativas de quem tem subjugado e silenciado, promovendo assim formas mais sustentáveis de entendimento e convívio com vista à valorização da vida e da sua dignidade na plenitude como o leite dos sonhos.
- ANA PIU- 06/01/2023
Texto para o módulo Bienal de Veneza dum curso de História da Arte

Rosana Paulino, 59ª Bienal de Veneza 2022

Rosana Paulino, Assentamentos, Pinacoteca de São Paulo

Rosana Paulino, Atlântico Vermelho, Padrão dos Descobrimentos, Lisboa 2017


Paula Rego, 59ª Bienal de Veneza 2022

quinta-feira, 5 de janeiro de 2023

EU SOU A SOPA QUE POUSOU NA SUA MOSCA



É isso aí! De perto ninguém é normal e eu também sei ser careta. O que expressa, então, esta imagem? Uma cara de careta ou uma careta cara?
Há uns dias atrás, não sei que algorritmo me picou, apareceu a página da Regina Duarte- Portugal na frente da ponta do meu nariz. "Oh messa! A Regininha mora agora em Portugal como tantxs outrxs que abanam os brincos e dizem: " Vou dar o fora! Brasil não tem jeito, não!" Daí lá vão eles e elas em busca dum Portugal gourmet onde possam afirmar à boca cheia que moram na Europa. Eu não sou de comentar em páginas de ninguém, muito menos de famosos que nem conheço, mas deu aquele formigueiro na ponta dos dedos e fiz este comentário:
" Sonsa. Já foste admirada por muitas portuguesas e portugueses pelo teu desempenho em Malu Mulher. Hoje és só mais uma dos tantos brasileiros privilegiados que se cagam para a classe artística que não a das novelas e que se caga para a dignidade da vida humana. Esse teu olhar delidoce não nos faz esquecer que és filhinha da papai milico e que te benefícias com isso."
Temos aqui duas questões: não tem problema nenhum ser ator de novela. Eu conheço vários e boa gente, consciente. A questão é que a industria televisiva nada tem a ver com as politicas públicas culturais, Esta se auto sustenta e é outra história, diferente de quem vive do teatro, da dança, das artes performativas. É outra lógica de criação, produção e de mercado com finalidades distintas. Já o ser filha de milico e como tal receber pensão vitalicia, que não é pouca pois serão muitas bolsas familias numa só pessoa, aparentemente não teria problema se a mesma usasse esses R$7000,00 vindos dos cofres públicos para levar beneficios à comunidade. Ingenuidade minha, não? Bom, mas o comentário que deixei foi de certo modo catártico, pois só de imaginar Portugal povoado extreminhas direita brasileirxs que defendem a ditadura e a tortura... Não sei se ela mora em Portugal ou se mora aqui perto de casa, visto ela ter crescido em Campinas. Pouco importa. Cruzar-me com ela na rua está fora dos meus sonhos.
Por outro lado, deixo aqui um manifesto da querida amiga atriz Isabel Mões, companheira de longa data desde que começamos a estudar artes cênicas em 1991, tendo como público alvo quem está do lado de cá, dos que defendem a democracia e a não extinção do apoio às artes e cultura. É também para lembrar aquela velha pergunta " Onde está a solidariedae?" aos artistas brasileiros, que mesmo considerando-se de esquerda sabem muito pouco ou nada de Portugal e alguns pensam que lá é a terra de todas as oportunidades. Enquanto não houver conhecimento de causa e união ser de esquerda é só um adorno para ficar bem na fotografia. Ai! Ai! Há sempre uma sopa a cair em alguma mosca....
𝐃𝐞𝐬𝐩𝐞𝐝𝐢𝐦𝐞𝐧𝐭𝐨 𝐩𝐨𝐫 𝐢𝐧𝐣𝐮𝐬𝐭𝐚 𝐜𝐚𝐮𝐬𝐚, 𝐨𝐮 “𝐝𝐚 𝐞𝐱𝐚𝐮𝐬𝐭𝐚̃𝐨”.
Neste ofício “morremos todos os dias na praia”,
e juntamos a essa “morte” horas extraordinárias de trabalho em exaustão.
sem nunca deitar a toalha ao chão,
𝗲́ 𝗳𝗿𝘂𝘀𝘁𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲, 𝗲́ 𝗲𝘀𝗴𝗼𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲!
No ano em que, dizem, “nunca houve tanto dinheiro para a cultura”, deveríamos, finalmente, celebrar.
Mas desoladas, lamentamos, dezenas de estruturas a fechar.
Centenas de profissionais sem poderem trabalhar.
Milhares de públicos largados, abandonados, não considerados...
Redes de afectos destruídas, relações criadas e excluídas.
(𝗲́ 𝗳𝗿𝘂𝘀𝘁𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲, 𝗲́ 𝗲𝘀𝗴𝗼𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲!)
Precisamos de falar!
Queremos ser ouvides!
Depois de dois anos de confinamento das artes, mais um ministro nos calhou, bem intencionado, culto e interessado...
mas não nos conhece, não nos ouve, não se compadece,
não acompanhou o processo, e nunca se candidatou.
Não nutre o diálogo com um sector que é diverso, inovador, audaz,
mas atravessado pela precariedade, ferido de morte, dorido e traído por todas as campanhas eleitorais que o mencionam.
Um sector em que a competência e a qualidade só sobrevivem através de uma resistência a toda a prova, durante toda uma vida.
Toda uma sobrevida!
(𝗲́ 𝗳𝗿𝘂𝘀𝘁𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲, 𝗲́ 𝗲𝘀𝗴𝗼𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲!)
𝗣𝗥𝗘𝗖𝗜𝗦𝗔𝗠𝗢𝗦 𝗗𝗘 𝗙𝗔𝗟𝗔𝗥
Queremos ser ouvides!
80% das candidaturas elegíveis, candidaturas de excelência, que criaram o CHÃO para vossa excelência ter CHÃO para governar, NÃO ESTÃO A SER PAGAS e precisam de falar.
(é frustrante, é esgotante!).
Reconhecemos que nenhum modelo é perfeito, que estamos sempre no CAMINHO...mas chegar de novo e destruir de FININHO a trama das artes que tem levado tanto tempo a tecer...
como se podem aumentar recursos fazendo crescer a desigual distribuição?como quem enche o corpo de esteróides e lhe arranca o CORAÇÃO...
Vem o aumento, vem o distanciamento? Aumenta-se o orçamento para a Cultura e distancia-se o diálogo?
Não nos ocorreu chegar a resultados de concursos públicos que não cumprem os avisos de abertura, que incorrem em erros legais e que defendem o contrário dos mais básicos direitos na Constituição.
Estes acontecimentos sujeitam-nos a níveis de indignidade e de humilhação que nos atravessam o corpo diariamente.
O corpo de toda a gente, de todos os agentes culturais...artistas, técnicos, funcionários públicos...os corpos dos ditos públicos e muitos mais…
o corpo dos elementos do júri que saem de cada concurso destruídos com o desgaste das escolhas e que por certo não regressarão (nunca mais!).
(𝗲́ 𝗳𝗿𝘂𝘀𝘁𝗿𝗮𝗻𝘁𝗲, 𝗲́ 𝗲𝘀𝗴𝗼𝘁𝗮𝗻𝘁𝗲!)
𝗣𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝗹𝗮𝗿!
Queremos mesmo ser ouvides!
tantas de nós há anos de " valise en carton" para encontrar alguma integridade na profissão de artista especializada, de cientista qualificada?
-Esta é uma de CARTA DE DESPEDIDA, fomos despedidas POR INJUSTA CAUSA!
Ser competente é punível com desconsideração.
Despedidas por injusta causa....assim sem mais…
Quando o vento muda e a vontade política se esquece de tudo o que tenho feito e gerado para criar mundos onde os filhos, os avós, os adultos encontrem a sua respiração, o seu sabor de viver, os detalhes que a vida apressada faz desaparecer, o ritmo da sua existência... Sou despedida…sem justa causa…assim sem mais nada…só porque o poder pode sufocar a potência de existir… pode dar um tiro no próprio pé e deitar fora anos de crescimento… despede-nos. O que irá acontecer com os meus filhos e os meus pais… sem os quais nunca poderia ter atravessado horas de trabalho sem descanso… porque a criação… como a lavoura… tem os seus próprios tempos, faça chuva ou faça sol… e ainda tenho que planear, defender, estudar, experimentar, escrever, apoiar as outras lavouras, comunicar, encontrar financiamentos...
Nunca quis fazer outra coisa, nunca foi fácil fazer o que faço… e faço-o bem! quer que me ajunte a quem faz o que faz mal? quer que me ajunte às linhas de tristeza e miséria que destroem a vitalidade da comunidade, do país, do mundo?
𝗣𝗿𝗲𝗰𝗶𝘀𝗮𝗺𝗼𝘀 𝗺𝗲𝘀𝗺𝗼 𝗱𝗲 𝗳𝗮𝗹𝗮𝗿!
Queremos MESMO ser ouvides!
com URGÊNCIA
antes que um dia o país fique deserto de sentido. Sem um único serviço administrativo. Sem um único espectáculo,
sem um livro, sem música, sem um podcast,
antes que venha a desertificação, a rádio sem conteúdos, o texto sem imaginação, cultura sem vibração.
𝗨𝗺 𝗽𝗮𝗶́𝘀 𝘀𝗲𝗺 𝘀𝗲𝗻𝘁𝗶𝗱𝗼 𝗽𝗮𝗿𝗮 𝗮 𝘀𝘂𝗮 𝗽𝗿𝗼́𝗽𝗿𝗶𝗮 𝗽𝗼𝗽𝘂𝗹𝗮𝗰̧𝗮̃𝗼.
𝗤𝘂𝗲𝗿 𝗩𝗼𝘀𝘀𝗮 𝗘𝗫𝗖𝗘𝗟𝗘̂𝗡𝗖𝗜𝗔 𝗮𝘀𝘀𝗶𝗻𝗮𝗿 𝘁𝗮𝗹 𝗜𝗠𝗣𝗥𝗨𝗗𝗘̂𝗡𝗖𝗜𝗔 ?𝗧𝗔𝗟 𝗩𝗜𝗢𝗟𝗘̂𝗡𝗖𝗜𝗔?
- TEXTO DE ISABEL MÕES-

terça-feira, 3 de janeiro de 2023

IMAGINEM


Imaginem que todos os muros, paredes, portões, janelas fossem grafiatados dando cor aos dias mais chuvosos.
Imaginem que a arte fosse mais importante que as ações financeiras e que esta sempre estivesse em toda e qualquer circunstância ao alcance de todxs sem elitismos nem erudições duvidosas.
Imaginem que a dúvida deixasse de existir, aquela dúvida que constroi muros, paredes, portões, janelas com grades para que alguém não nos invada ou exponha sem o nosso consentimento.Aquela dúvida que nos faz olhar, observar demoradamente até tomar o primeiro passo para aquele abraço tão esperado.
Imagimem muros, paredes, portões, janelas com grades deixassem de existir. Onde os grafites poderiam colorir os dias mais chuvosos? Imaginem que a a capacidade de imaginar deixasse de existir? Que chato que seria, não?
Imaginem que a imaginação criativa fosse tão estimulada para todxs que esta seria igual alimento como o arroz e feijão.
Imaginem que o medo, a ansiedade, a incerteza nunca mais fizesse parte das nossas vidas. Como seriamos? Uns meninos e meninas mimadas que acham que vivemos na terra maravilhosa do nunca onde não há obstáculos e somos merecedores de todo o conforto do mundo ou alguém que segura a vida pelos cornos e faz do medo coragem, da ansiedade confianaça, da incerteza um arriscar em ser feliz em dias de sol e também de chuva?
A Piu
Br, 03/01/2023

quarta-feira, 21 de dezembro de 2022

COM TATO


 

Pois é, ando toda vaidosa com as minhas calças vermelhas adquiridas num brechó da Vila que o Tom Zé anunciou numa das suas composições: Vila Madalena. Aqui a garimpeira somente de brechós quase sempre encontra umas peças yê yê mais em conta que ir ao Braz. Com estas calças posso passar por motogirl de pizzas, que já o fui no século passado, posso passar por mamãe noela, que sou desde o inicio deste novo milénio ou por petista, que sou mas também não sou por motivos que passo a apresentar sem por isso comprometer o meu posicionamente diante de mim mesma, dos outros que me são próximos ou distantes e principalmente da sociedade brasileira em especifico e da conjectura mundial, dentro das minhas referências e conhecimento prático e também teórico. Ora pois pois.

Não sou petista porque como estrangeira não me é permitido ser eleitora neste país continental. Sou petista mas não sou, porque mesmo assim tem sido um governo que abriu possibilidades democráticas a uma fatia grande da população: educação, aceso ao ensino superior, pontos de cultuta, editais culturais e outros com políticas de inclusão, manutenção do SUS ( sistema de saúde pública), projeto "minha casa minha vida", etc. Por colocar esperança neste governo que vai assumir a liderançano ano de 2023 e que promete criar o Ministério dos Povos Originários escrevo aqui estas palavras que é o meu ponto de vista a partir da minha bagagem vivencial, cultural que tem sido adquirida ao longo da minha existência e aprofundada com os 10 anos em que moro no Brasil.

Para quem não sabe eu sou portuguesa. Para mim não é motivo nem de orgulho nem de vergonha. É uma circunstância. Poderia ser francesa ou alemã, se os meus pais tivessem emigrado, exilado, refugiado para lá. Poderia ser moçambicana ou angolana se os meus pais tivessem ido para lá ou brasileira... ou da Gronelândia para justificar o facto de ser a mamãe noela... Se eu fosse alemã com certeza que não viria nos genes eu ser nazi, aliás muitos alemães são anti racistas e anti fascistas, o mesmo se passa com vários portugueses. Se tivesse nascido em Angola ou Moçambique antes de 1975 não seria obrigatoriamente uma colonialista e fascista do pior ( veja-se o caso do escritor moçambicano Mia Couto cujos pais são brancos e portugueses e o mesmo esteve ao lado das lutas de Independência Moçambicana e nunca fugiu às pressas de Moçambique por ser branco).

Irmos ao encontro do "outro" que também somos nós é ir com tato, tacto. Se isso não aconteceu nos últimos 500 anos mesmo assim já existem seres humanos e instituições que estão a mudar o paradigma, compreendendo que o protagonismo dos silenciados, porque invadidos e oprimidos, nem sequer devia ser negociável a esta altura do campeonato.

No Instituto Moreira Salles na Avenida Paulista em São Paulo está a exposição 'Xingu: contatos'. Uma verdadeira aula de Antropologia Social sem intermediários. As câmeras estão nas mãos dos indígenas que contam a sua história. A tecnologia é para todos ao serviço da "memória do futuro" e da natureza que está seriamente comprometida pela ganância extrativista. 

Indígena com celular, material tecnológico não lhe retira identidade e sim reforça-a. Nesta exposição pode-se ler num painel cronológico que em 2011 a Dilma retoma o projeto da hidrelétrica de Belo Monte iniciado na época da ditadura militar ( 1964/85). Num dos vídeos um indígena, que infelizmente não anotei o nome, pede ao Lula para este lembrar o povo brasileiro de respeitar os povos indígenas. Muito bom e importante. Mas mais que tudo é necessário lembrar que esse Ministério deverá ser composto por indígenas e que os acordos que este governo fizer com a oposição terá de levar em conta o eleitorado indígena, e não só, que elegeu novamente o PT para que aquele messias da treta ponha-se a andar de uma vez por todas.

Em suma, Bom Natal e próspero ano novo para todxs nós que defendemos " a democracia que é o pior de todos os sistemas com excepção de todos os outros". ( Sérgio Godinho).

A Piu

Br, 21/12/2022

ALÔ! QUANDO DESLIGAR, DESLIGOU!


Aqui temos uma reminiscência das comunicações com um ar todo pop art bem no centro de Sampa. Ainda funciona com cartão!! Aquele que quando acabava as moedas desligava e não valia insistir. O mesmo com o cartão. O de moedas nunca mais vi! Tá! Haviam umas gambiarras. Mas vai que esse objeto de museu ainda anda por aí!
Quanto a museus vale sempre a pena revisitar o memorial da resistência na Luz que é gratuito. Aos sábados é igualmente gratuito o Museu da Língua portuguesa onde está uma exposição " Memória e transformação " sobre as línguas indígenas que teem sobrevivido a extinção. Na frente está a Pinacoteca com várias obras de arte que tive a oportunidade de confirmar a sua existência depois de conhecê-las num curso sobre História de Arte. Hélio Oiticica, entre outros. Pena que não dê para interagir com as obras de Lygia Clark, pois estão numa redoma.
Hoje é dia de apreciar grafites na rua. Para mim grafite é na rua e não na galeria ou museu.
Agora vou desligar das redes porque a vida está lá fora!

Sampa, 19/12/2022
A Piu



quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

NOZES E OZOUTRES série: o que pensam xs do lado de lá da barrigada

 "Primeiro estranhas, depois entranhas", já dizia o meu conterrôneo Pessoa. Há pessoa e pessoas, só que há umas que acham que as outras não o são ou são, mas mais ou menos, assim assim, assim assado, onde parece que o que se passou já está ultrapassado ou confirma que ainda está presente o que foi passado.

"Quer que eu seja bem sincero?" ( Claro! Estamos aqui para isso! A verdade de cada um acima de tudo e todos. Mais vale uma verdade assumida com a qual eu não concorde do que uma mentira sonsa ou hipocritazinha. Vamos lá homem! Abra o seu coração!) " Eu não sou a favor das cotas raciais! Eu também não gostaria de ir para Portugal e entrar numa universidade porque existem cotas para brasileiros. Eu quero entrar em pé de igualdade e porque sou competente." ( Por acaso até existem politicas no meio universitário para se receber alunos estrangeiros. As universidade portuguesas recebem  agora às mãos cheias brasileirxs, pois são acordos diplomáticos vantajosos para as instituições, mesmo que o povo português não usufrua dessas vantagens. Eu também entrei como aluna estrangeira numa conceituada universidade brasileira. Logo logo percebi que tinha sido um presente envenenado. Porquê? Porque no meio académico humilhar a capacidade e a inteligência das pessoas é um modus operandis recorrente, sejamos bracos, negros, amarelos, vermelhos, listrados ou pingados. Sou todos muito inteligentes, desde que não saiam da apostila de citações de autores e regras de escrita académica! Saindo um cadinho já ficam zonzos e alegam que não é do seu escopo).

" Mas você não acha que uma pessoa, normalmente branca, que teve a oportunidade de passar por uma escola que é feita para preparar as pessoas para terem profissões qualificadas está em pé de igualdade com outra, normalmente negra se branca é igualmente pobre, que mora numa periferia onde as necessidades básicas nem sempre estão asseguradas? Há muitos professores e cordenadores pedagógicos a defenderem a escola pública, mas o próprio sistema nem sempre ajuda."

"Os negros são muito melhores que nós quando se poeem a fazer algo. Há bons atletas, bons futebolistas, bons músicos. O problema é que eles não se organizam e estãi sempre à espera da assistência dos brancos. " ( Caramba! Comento ou deixa quieto?) . Porque é que essas pessoas que ganham muito não ajudam as suas comunidades?" ( É o Cristiano Ronaldo também vai substituir em Portugal o que é dever do Estado com a sua Fundação filtantópica... Granda Cristiano. Os futebolistas sãos os neo messias.)

Resumimdo e concluindo: este cidadão brasileiro branco de classe média já com poder aquisitivo acima da média, como tantos muitos outros, considera que os negros, como os indigenas, não fazem parte da sociedade brasileira. Não contribuem com os seus impostos, que não são eleitorado, tampouco desconhece os movimentos sociais destes grupos. Em suma, defende o apartheid. Toma e ai buscari!  Ele está ciente disso ou é preciso avisá-lo?

A Piu

Br, 14/12/2022