terça-feira, 30 de março de 2021

MUROS E VÉUS PARA QUE SERVEM?


 Existem muitos muros e véus que nos separam e nos unem. Nem todos os muros e véus são ruins, como nem todas as sombras são tóxicas. Quem não gosta da sombra fresca duma árvore no meio do deserto ou duma longa extensão de terra árida? Muitos de nós outros nunca atravessou um deserto de areia, mas acredito que muitos dos outros nós que somos nós outros já atravessamos desertos interiores e, lá está, como cantava o Zeca Afonso " Há quem viva sem dar por nada e há quem morra sem tal saber". Esta frase pode ter muitos e inúmeros sentidos. Mas pensemos, por ora, nos muros internos que temos e se os queremos derrubar ou mantê-los, por uma questão de existência e também sobrevivência.Muitas vezes passamos uma vida inteirinha sem os reconhecer, logo não os podemos derrubar ou cuidar deles adequadamente.
Existiu o muro de Berlim, a muralha da China. Muros para proteger territórios, ideologias, poderes e outros apegos internos coletivos que se manifestam na matéria, no dia a dia, na convivência. Também existe o muro das lamentações, os muros das nossas casas ( os muros internos já falei que são as crenças limitantes ou o conhecimento dos nossos limites e que limites queremos colocar a nós e aos demais), e os muros que se atravessam entre mim e ti, entre nós e os outros. Muros esses invisíveis, porque não são feitos nem de tijolos nem de cimento. São muros de ideias pré concebidas, de desconfiança, daquela intriguinha tipo: 'Ouvi dizer que esta pessoa fez isto e aquilo... Não a conheço. Nunca falei com ela, mas ouvi dizer....' Ou: 'Será que esta pessoa, este ser humano, dum determinado género, nacionalidade ou região, de esta ou daquela pigmentação, que segue uma ideologia ou ou crença religiosa que eu estranho ou não me identifico é igual à outra pessoa com a quem tive uma experiência menos sortuda, digamos assim? Será que aquela família é toda igual ou aquele povo é todo igual? ) Generalizar é o muro mais alto que nós podemos colocar entre nós, mas algumas vezes os gatos escaldados da água tem medo.
Vou confessar aqui entre nós, e espero queridos homens que acolham pela via do coração: Eu já tive muita, mas muita desconfiança de homens brasileiros, porque a minha experiência nem sempre foi fixe bacana e infelizmente é recorrente com outras mulheres ( brasileiras ou não)... Não significa que não existam homens brasileiros como homens de outras nacionalidades cinco estrelas. Mas não podemos esquecer que este território, continente, foi colonizado pelo meu povo ( português) e não só à custa de invasões, estupros e outras cosas más. Eu sei, querido leitor brasileiro, português, espanhol, holandês, inglês, francês, alemão você está disposto a olhar convictamente para todo esse histórico ancestral, a olhar para os ismos estruturais que nos atravessam e a reconhecer que todes nós precisamos de nos curarmos emocionalmente, De abrir mão das mutilações, sejam estas genitais ou de liberdade de expressão. De abrir mão do síndrome da gostozice que não é a mesma coisa que flertar com leveza, com alegria de brincar e trocar de igual para igual o prazer de estar junto sem abusos de confiança. O síndrome da gostozice é como ir num supermercado cheio de oferta e ficar de cabeça virada quem vai comer hoje e como eu vou colocar à prova o poder de sedução em várias frentes para depois dar uma de santidade comprometida. Qual foi a mulher, e também outros géneros, que nunca viveu um episódio desses? Na verdade o outro ou nós não queremos nada é só testar se somos desejades ou se temos poder de sedução. Para mim isso é desonesto. Como nem toda a aproximação significa flertar...Termos amigos com genitais diferentes dos nossos e orientações sexuais outras é saudável. Pelo menos para mim, sem impor nada a ninguém
Quando nos comprometemos a nos auto observar no silêncio, a prestar atenção nas nossas batidas cardíacas muitos véus se esvoaçam. Vamos nos despedindo das nossas certezas e vamos abrindo mão de olhar para os feitios e defeitos alheios porque há muito trabalho a fazer cá dentro.
Ai! Eu gostaria de ter escrito sobre um amor telepático, talvez uma idealização ou até mesmo (re) encontros de outras vidas ( quem conhece todos os mistérios da vida? Se conhecêssemos deixariam de ser mistérios e talvez não fizesse sentido encarnarmos... Já saberíamos tudo e seria um grande tédio num mar de convicções ) que surge dum alto muro de equívocos e eu pedalo quase até levantar voo. Mas como acredito que nada acontece por acaso, vamos ver no que é que dá. Como esse muro invisível se dilui com uma grande chuva de água despoluída, visto que agora com a diminuição do tráfego motorizado o ar anda um pouco mais leve e o céu mais azul.
A Piu
Campinas SP 30/03/2021

sábado, 27 de março de 2021

DIA DO TEATRO E DO CIRCO


 Iniciei o mês de Março homenageando as mulheres brasileiras, pois é nesse território nacional que me encontro e estas muito me têm inspirado e apoiado. Muitos nomes ainda serão proferidos, mas desta vez homenageio com profunda amizade e agradecimento uma querida amiga e grande artista portuguesa, filha de emigrantes em França. Não é mais nem menos que a Judite da Silva Gameiro. Diretora de cena, escritora, figurinista, pintora, ceramista, escultora, produtora, mãe, mulher, ser humana. 

Trabalhamos juntas neste seu projeto Teatro Ka com o espetáculo ' Uroboru ' entre 2003 e 2010. Um espetáculo em andas/ pernas de pau que viajou pelas ruas e festivais de teatro de rua em  Portugal, Itália, França, Holanda e Alemanha. Porque afinal a poesia pode e deve também estar na rua. 

Ao longo desses anos de parceria, 'Uroboru' contou com três elencos de atores: Jean Pierre Billaud ( em memória), Nicolas Brites e Sérgio Fernandes. 

É um espetáculo poético e cómico cheio de mal entendidos do que é paixão, amor e desejo entre uma florista e um pintor. Algumas histórias posso contar desde os seus ensaios, onde fomos expulsos da sala de paroquia pelo padre enquanto ensaiávamos, porque a Judite não frequentava aquela paróquia e era muito provável que estivéssemos a ensaiar algo politico subversivo... O Jean Pierre ficou  sentado com as perninhas de pau a baterem no chão para não se erguerem bruscamente diante do absurdo. Eu não liguei, pois ao mesmo tempo que era surpreendente e previsível esse episódio confirmava-se a tacanhez de lugares e mentes pequenas e a grande coragem da Judite em regressar à santa terrinha, vinda de Paris, depois de tantos anos. 

Uma das memórias mais presentes foi num festival na Alemanha em que o público chegou com meia hora de antecedência para marcar o lugar de pé, debaixo de guarda chuvas. Esperamos que a chuva abrandasse e a organização secou o chão. Atuamos debaixo duma chuva fininha de Verão. Penso que é o mínimo que podemos fazer pelo público, pela arte de viver: acolher e sermos acolhidos e vice versa e toca o passo sempre levantado os joelhos para não escorregar no chão molhado nem tropeçar nas próprias pernas altas. Técnicas... ;) 

BOM DIA DO TEATRO E DO CIRCO!!! Podemos viver sem muitas coisas mas sem sonho, poesia e re significação quem somos nós? 

A Piu

Campinas SP 27/03/2021

quinta-feira, 25 de março de 2021

TIVE UM AVÔ VISIONÁRIO!

 



A pessoa mais antiga que eu conheci foi o meu bisavô, a quem eu chamava de avô, Manel. Sim, Manuel com U. É o único português na minha família que eu conheço com esse nome. Também tenho um Ti Jaquim ( Joaquim). Fora isso, são Joões, Josés, Pedros, Nunos, Diogos, Benjamins, Tomases, Hugos - estes dois últimos são os meus sobrinhitos que são os mais novitos da árvore. Quase impossível de conhecer este sujeito que nasceu em 1899. Sempre senti orgulho de conhecer alguém que nasceu ainda no século XIX. Achava uma preciosidade, uma relíquia. Este sujeito viveu até aos oitenta e tantos anos. Teria as suas coisas, mas era uma piada. Um visionário!!!! UM VISIONÁRIO!

Ao lado dele, do pai da minha avó paterna, está a minha mãe. Não editei a foto porque gosto de mantê-la presente com o seu sorriso. Mas histórias icónicas com ela fica para um outro momento. 

Voltemos a este ícone que atravessou o século XX num meio rural entre a serra de Sintra a costa do Estoril, tão longe e tão perto de Lisboa principalmente há umas décadas atrás. O avô Manel criava cabras, ovelhas, tratava da terra e era vaidoso. Não perdia uma oportunidade de ir à feira anual do gado na Malveira da Serra para comprar o seu chapéu de feltro. Um saloio com estilo. Também usava um colete, que eu na minha adolescência usei aberto em estilo descolado. Mas ele, o visionário, usava com aqueles relógios de bolso com uma corrente. À antiga. Para mim estar diante daquele ser era estar diante de uma memória ainda viva de outros tempos.

Ora este sujeito, que veio a conhecer a televisão já em idade avançada, acreditava que as locutoras ( aquelas que apresentavam a programação nos idos anos 70/ 80) o viam. Mandava beijinhos, piscava o olho, oferecia um copinho de vinho e comentava que a Isabel Bahia era muito amiga dele. Falava sempre com um ar muito simpático a sorrir. Muito simpática e decente. A Isabel Bahia e outras devem-se lembrar perfeitamente do avô Manel!

Já com as telenovelas, que na época eram só brasileiras, aquilo confundia-lhe os miolos! Achava que eram histórias reais e não entendia quando a mesma atriz fazia outro papel e que ele já não estava a assistir à mesma telenovela. " Esta aqui!... Esta aqui é uma velhaca! Desavergonhada. Estava casada com um e agora já 'tá nos braços de outro! Parecia ser tão boazinha e está completamente diferente!"

Porquê um visionário? Mal sabia ele que umas três décadas mais tarde as pessoas conseguir-se-iam ver umas às outras na tela. Não uma audiência televisiva de milhares de pessoas, mas talvez para lá caminhamos. Também nunca assistiu às chachadas dos reality show, melodramas encenados da vida real. 

Em suma,  um saloio galã até ao final da vida este avô Manel.  A Isabel Bahia ainda se deve lembrar dele perfeitamente, como toda a equipe da Rádio televisão portuguesa. 

A Piu

Campinas SP 25/03/2021


quarta-feira, 24 de março de 2021

SAINDO DO MOLDE


Deslocarmo-nos, nos deslocarmos, deslocarmos-nos é sempre aquele tal de movimento de  ímpeto, de folego do tal do rumo ao desconhecido algumas, se não muitas, vezes encontrando o já conhecido com aquele cheiro a mofo fruto da friagem, das correntezas de ar que se enfiam na coluna, vulgus espinha.

Eta verborreia danada! O que queres dizer e exatamente?

O que eu quero dizer assim a modos que resumidamente é que  temos muito mas muito que caminhar. Hmmmm querias falar sobre aquela viaja de mochilão de comboio/ trem até Budapeste, parando em Viena de Austria em 1991. Mais a húngara feliz da vida em pose sensual de seriado yanki num qualquer bar  de Buda ou de Peste com com as suas pernas alvas sobre a mesa de bilhar enquanto empunha orgulhosamente uma cueca cuela. Tu tens 18 anos e tudo o que esperas da emancipação do leste da Europa é tudo mas tido menos renderem-se ao consumismo norte americano. BALDE DE ÁGIUA FRIA. DEPOIS DISSO TUDO É CONVERSA. CONVERSA E CARTILHA PARA BOI DORMIR ZZZZZZZ Dois mundos num só com um muro, uma cortina de ferro caindo gradual e bruscamente. Queres falar do síndrome da gostozice e como isso te enjoa e levas tempo, e esperas, refletes, respiras fundos, ris-te mas ris-te sozinha a bandeiras despregadas com tanto absurdo com o teu próprio absurdo de não compreenderes os códigos mas quando entendes um pouco mais não 'tás a fim desse jogo que ilude ambas as partes e ilusoriamente favorece uma destas. Favorece quem se mostra mais forte e insensível, impenetrável e capacitado para substituir um crush por outro amor temporário e isso enjoa-te, porque forçado esem escuta? És uma romântica? Uma inadaptada? Uma utópica? Uma anti sociedade do consumo que desfalece quando entende que até as relações são auto marketing? Ai miúda! O que esperas da vida? Bem dito resgate do feminino! Gratinados!!! ( seá que os meu amigos komunas vão entender o que falo ou vão mechamar isos histérica? Ai e agora? Sorrio e aceno com o sorriso namasté nº 33. É isso! Bola p'ra frente!) 

UP! UP! Foca-te! Sim, ti foca, menina!O que queres falar mesmo para continuar o próximo texto e assim as pessoas  não se saturarem nem acharem que é com elas em especifico, mas até é. Mas não é, mas é.

Queria dizer que uma vez ris-te muito  com cumplicidade com uma cidadã brasileira quando esta dizia que adorava o Brasil e que tinha voltado da Austria porque mesmo assim adorava a bagunçada brasileira e que o povo brazuca  aqui sofre daquele síndrome da gostozice que os confere num lugar um tanto ou quanto adolescente. Olá! Rimos muito. Não sei se ela é rica ou privilegiada por ter morado na Austria, nunca lhe contei o dinheiro e tinha acabado de conhece-la. Talvez tenha passado os seu apertos. Ou não. Fez camas em hotéis para pagar as contas porque a bolsa não chegava... Será? Teve um casamento incrível que durou enquanto durou? Trabalhou no corporativismo e hoje é artesã empreendedora por conta própria? Cri cri. Não sei. Não sermos videntes da vida alheia é muito importante. Não fazermos juízos de valor é im-pres-cin-di-vel.

Bom, mas naquele momento  ela me aliviou de algo que eu já desconfiava mas não conseguia verbalizar, principalmente por vir dum dum povo igualmente reprimido no seu desejo mas dum outro jeito.

Bom, até ao próximo texto. Espero-vos aqui de peito aberto, esperando que vós outros não tomem nada como pessoal e sim como um estimulo para sairmos do engodo dos achismos que ser comedor(a)  com ou sem exotismos ou do ai credo é que o caminho da luz... Crack crack crush puf paf  zzzzzzzzz

VITÓRIAS AOS RESILIENTES!


Ciao ciao  ragazzos e ragazzias! Inté!


A Piu 

Campinas SP 24/03/2021

domingo, 21 de março de 2021

DO QUE PRECISAMOS DE NOS LIBERTAR


Antes de nascermos já trazemos aquela bagagem que veio antes de nós, ou de nós mas de outras vidas - para quem se prestar a acreditar ou pelo menos a não negar, quando desconhece, o mistério da re encarnação. Com uma vida ou muitas nós carregamos no DNA memórias antigas recentes ou muito, mas muito, muito, muito, mas muito mesmo antigas.

O planeta terra é redondo e não é nem um disco unidimensional nem uma bola redondinha. É uma laranja batida aqui e ali que ora dá sumo/suco docinho ou um pouco amargo ou mais ou menos. Mas sempre dá qualquer coisa. Por vezes não confiamos nessa tal de mãe terra, na sua abundância e na capacidade de distribuir o sustento. Essa não confiança ou desconfiança vem do medo, da crença limitante da escassez, da sovinice de  assegurar só para si, da sede de poder, de querer destacar-se pelo status e bens materiais. Da subjugação e meritocracia.

Nós trazemos muita bagagem dentro de nós que precisamos urgentemente de rever e descartar. Bagagem essa  que nos últimos milhares de ano é patriarcal. Eu ainda estou a estudar e a entender o que é o matricentrismo, os sistemas matriarcais,. Como tal ,vou deixar para depois esse  partilhar de entendimentos. 

Vou agora introduzir um assunto EX-TRE-MA-MEN-TE DE-LI-CA-DO: o poder da libido, a libertação sensual e sexual. Como existem tantas , mas tantas e e tantas e tantas distorções acerca dessa energia vital que vai para lá dum assunto teórico e comilão de ocasião promovida pelas mídias que vislumbram o lucro e alienação- eu chamo de delicado e anuncio que vou passo a passo.

Vou passo a passo para entender com mais profundidade o que é auto estima, poder de se entregar e liberdade para que não seja confundido com síndrome da gostozice, onde disputas de ego e vaidades vãs com carência se confundam com a leveza da liberdade.Assim como a reprodução de estereótipos capitalistas, neo liberais que dá a ilusão de liberdade e libertação... Quando confrontados chamam os confrontadores uns caretas, moralistas e cacás.  Liberdade não é o mesmo que sacanagem. Sacanagem é aquela liberdade carnavalesca (sub) urbana que zomba do acanhamento moralista da santa terrinha ou do desconhecido mas  que vai dar ao mesmo. O chamado consome e joga fora cheio de ai credos ora (sub) urbanos, ora aldeãos mas com a mesma partitura de equivoco e desentendimento. Porquê?

Até ao próximo texto e bom  domingo!

Que bárbaro é olharmos com honestidade para nós mesmes e nos revermos. E confiar no poder do amor sem carência nem gula. Piú belo, diria!

NÓS SEMPRE COM AMOR. ELE , o equivoco e obscurantismo, NÃO! LIBERTAÇÃO SIM!

A Piu

Campinas SP 21/03/2021

sábado, 20 de março de 2021

PAI DO PAI É GRANDE PAI - porque 19 de Março é dia dos país lá no sul do hemisfério norte

 Não se falava mais isso. O que passou, passou. Não se sabe ao certo o que se passou, porque não se falava mais nisso. Mas pode-se imaginar o que se passou para não se falar mais nisso. Foi um mês de ausência. Menos mal que foi um mês e não um ano ou uma ida sem regresso. Ao que consta não pertencia a nenhuma organização clandestina da oposição, mas o punho formigava há um bom tempo. Para se manter naquele emprego teria de pertencer à Legião Portuguesa, mas ter de aguentar as cuspidelas mandonas dum milili que neste texto vai ser de porte pequenito e empertigado para dar aquela imagem daqueles canitos nervosos que correm atrás das rodas das motos. Também podemos colocar um porte altivo e espadaúdo que se desmorona numa puxada atrás  ( vulgus murraça) bem no meio da testa. " Na próxima vez que o gajo vier cuspir fininho vai levar uma nos cornos!', pensou. 

Não demorou...Ou era porque as botas não estavam engraxadas ao ponto do mandão se ver refletido, ou a farda não estava impecável, ou não tinha feito continência com a mão certa, o aquele balde de água sobre o chão não tinha sido jogado quando essa não era sua função ao qual tinha sido contratado para aquele emprego. Qualquer pretexto servia para humilhar e falar com o seu hálito de sopas de cavalo cansado em cima dos subalternos. ZÁS! Em cheio! Sabia que iria pagar por isso, e caro. Mas soube-lhe bem. Nunca soube o que era meditação e por vezes não há meditação que segure, porque afinal de contas a paciência é uma mocinha que também  se cansa. Provavelmente nunca se arrependeu daquela descarga elétrica, ou provavelmente sim porque fez a sua esposa e filho verem-no a ser levado para a pildra, Atrás das grades um mês em plena ditadura por ter dado uma socalhada a um superior. Acontece... Talvez tenha dado um berro e cobardemente disseram que ele esmurrou o outro. Isso também acontece. Você nunca viu isso acontecer? Eu já. Mais vale alguém que corajosamente assume os seus atos que um cobarde que distorce os factos.

Os guardas republicanos faxixi e fazcócó vieram-no buscar a casa. Anos mais tarde, muitos anos mais tarde - uns trinta, vá - ele na brincadeira diz a umas visitas que da sua casa até ao mar há uma passagem subterrânea da época dos romanos. As visitas acreditam e nós todos rimos por dentro, não porque ele diminui as visitas. Nada disso. É uma brincadeira de algo tão inusitado que as visitas acreditam, mas que talvez naquele dia nos idos anos 50 teria dado muito jeito. Uma fuga pela passagem subterrânea arqueológica desde o seu quintal até ao mar. 'Granda' estilo! Esse sujeito, esse gajo foi o meu avô Cunha, pai do meu pai.


A Piu 

Campinas SP 20/03/2021



quinta-feira, 18 de março de 2021

VOU NU MEU VOO

 

Uma imagem, por vezes, vale mais do que mil palavras. Dizem uns. Como uma imagem, mil palavras vão ser interpretadas de milhares de formas, consoante aquele que a contempla e digere. Algumas vezes as opiniões seguem em jorros sem se quer haver uma digestão. Logo uma compreensão.

Aqui eu vejo uma mulher tentando levantar voo e/ou olhando com assombro ou entusiasmo para as raízes que estão cobertas pelo soalho. Também vejo um rosto com um nariz e uma boca aberta e os cabelos ao vento.

Muitas vezes alguém lê-nos, creio que não contempla nem digere realmente, e não entende muita coisa porque fixou-se às suas ideias, às suas referências e padrões de comportamento. Pode até viajar no espaço físico, para grandes cidades cosmopolitas, mas se não viaja para dentro de si e não se contempla como vai contemplar as outras pessoas? 

Ai... Eu queria escrever sobre a importância de andarmos informad@s para assim sermos solidários com os emigrantes, com as mulheres, periféricos e segregados. Também queria escrever sobre a urgência de investir mais na comunicação não violenta em que as pessoas escutam as necessidades umas das outras sem julgamentos, assim como do sexo inapropriado que tantas linhas espirituais falam e que muitos seguidores dessas linha distorcem, uns achando que é para levar tudo à frente e assim não saem do lugar aprisionante de comedores e comidos e outros cheios de ai credos que isso é pecado. Enfim, uma série de equívocos que podemos desfazer neste momento de confinamento onde as oportunidades são múltiplas para nos silenciarmos, respirarmos profunda mento e auto conhecermo-nos. Como pretendo conhecer e entregar-me a outro ser se não me conheço e não me entrego a mim?Ao voar para dentro de mim desnudo-me e voo, porque me torno leve. Bora sair do lugar de quem dá mais e marcar um encontro com nós mesmos onde quem sai vitorioso somos nós mesmos e assim a vida, além de sorrir, flui para o lugar onde estamos olhando com entrega e escuta?

Oxê! Eu também queria escrever sobre sororidade. O mês de Março, mês das mulheres ( e dos homens que apoiam e se entregam à desconstrução do patriarcado)  ainda vai a meio!!!


Até ao próximo e texto e imagem!!!

A Piu 

Campinas SP 18/03/2021 2021