quarta-feira, 1 de julho de 2020

série: ALGUÉM VIU A SORORIDADE PASSAR POR AQUI E FICAR?

Hoje vamos falar de sororidade, assunto tão caro de termo tão relativamente recente. Para mim é. Para voceses, não? Estou aqui aberta como uma ostra para aprender! Aquelas ostras que quando um grãos de areia e outras inconveniências parasitárias entram dentro da conchinha cria-se uma pérola, transformando dor em amor. Pronto, podem levar o roteiro e fazer cada uma e cada um à sua maneira!Aha isso é sororidade, é termos uma ideia e partilharmos com a galerada sem medo que nos roubem as ideias, porque quando há criatividade cada ser contará a sua história, com a sua visceralidade e verdade a partir dum tema comum que nos é caro, que é sermos compreendidas. Olhem, só para avisar antes de tudo e do mais multipliquem aí três vezes da idade da adolescência e o resultado sairá a minha idade. Eu imagino, que há uns anos atrás eu poderia ser eventualmente irritante para as mais velhas, por as tirar do lugar de conforto, mas hoje também poderei ser irritante e desconcertante para as mais novas que acreditam que o mundo está nas suas mãos entre uma bundchinha, um certificado com um titulo  ( em determinados recortes sócio económicos, claro) e uma imensa carência de ser reconhecida e amada mesmo que por um macho alpha que coloca eventualmente as mulheres umas contra as outras, numa ciumeira que só visto. Contado ninguém acredita. Umas puxam o cabelo, outras jogam um seio de silicone na testa da outra, outras ainda inventam casos e fofocage só para ferrar. Ihih Um pandemónio

Sim,muitas mulheres são competitivas, fofoqueiras, mesquinhas, invejosas e competitivas. E isso é o calcanhar de Aquiles que os machõszinhos se aproveitam. Pois se sabendo intimidados com a potencialidade do feminino curado tremem como varas verdes e ainda difamam que as mulheres que abrem peito são mal comidas e arruaçeiras. E existem mulheres, que na sua carência vão atrás destas balelas. Já outras  se achando tão sagradas e conectadas, mas que ao primeiro uivo duma mulher viram as costas porque consideram tal despudor ( burguesote e\ou submisso) nada iluminado e uma afronta, lá no intimo, com os homens e as regras de convivência. Outras sentem um terrível medo de uivar, nem um movimento para não contrariar muito menos irritar o algoz. Uma questão de sobrevivência....

Há que prestar atenção com quem podemos contar e quem pode contar connosco.  As acomodadas à sua iluminação transcendental de um olhar para dentro sem contemplar um olhar para fora, para as manas, assim como as que encontram mais vantagem num projeto de sucesso individual com parcerias individualistas, ou que a sua sobrevivência é mais importante que unir forças, é um campo de observação para que possamos atuar com consciência de classe, étnica e outros recortes que se insiste fazer nesta sociedade que precisa urgentemente  de ser curada. Primeiro pela reflexão, depois pelo riso que vem daí. O riso que subscreve a boçalidade, a ignorância, a indiferença, a vaidade, as ideias feitas acerca de tudo e de tod@s dá vontade de rir ou de.... O que tem a dizer sobre o assunto? Não precisa de dizer nada, mas podemos pensar juntes e fazer diferente. Num é mesmo?

BOA QUARENTENA DE RESILIÊNCIAS  MIL! Até a próximo texto!

A Piu
Campinas SP 01/07/20202

Curta a página " AR DULCE AR" e se puder, quiser, se se tocar apoie este projeto de palhaçaria feminina sobre relações abusivas. https://www.facebook.com/AR-DULCE-AR-162965127817209/




MAS QUE CÉU É ESSE QUE HÁ MILHARES DE ANOS AS PESSOAS CONTEMPLAM?


No ano de 2013 o espetáculo de formas animadas ‘ Um Buraco no Céu’ é criado e estreado num Festival de Títeres em San Nicolas na Argentina. Criado por mim, Ana Piu, uma artista cênica e por Denise Valarini, uma artista visual. Quem trouxe a ideia do buraco no céu que estava se abrindo sobre um povoado e seria urgente costurá-lo foi essa artista visual.

‘ O Buraco no Céu’ foi escrito  a duas mãos e montado antes de eu conhecer o manuscrito  ' A queda do céu: palavras de um Xamã yanomami’ do David Kopenawa e do Bruce Albert. Porém essas coincidências de montar um trabalho autoral cuja protagonista é uma anciã e as outras personagens ativas são mulheres que representam a idade maior, a ancestralidade, tenha esta ou não sabedoria, e que aborda a questão ambiental e posteriormente a ecologia das emoções com o reconhecimento das preocupações dum povo antigo da floresta foi ‘Aha!’, um entendimento trazido para a consciência. A Senhora do Silêncio é uma boneca de manipulação direta que protagoniza toda a trama, guardando um segredo que todos já sabem mas muitos esqueceram, ou lembraram-se e esquecer ou esqueceram de se lembrar e por isso por ora desconhecem. Ao inicio contemplam esse buraco deslumbrados, mas depois assombrados sem saber como resolver e entrando num estado de aflição tentando encontrar culpados e sem conseguirem chegar a conclusão nenhuma, pois a escuta é algo que não está afinado como exercício de cidadania. Com o desenrolar da trama a Senhora do Silêncio, que sempre esteve lá é relembrada e finalmente olhada com atenção e o exemplo de olhar o céu enraizada na terra em silêncio abre espaço para que tudo volte a ser um todo, sem rupturas que gerem o perigo do céu nos cair na cabeça e ser o dilúvio total onde não há escapatória nem mesmo numa lata de conserva.

A Piu 
01'07'2020

crédito: Italo Medina

terça-feira, 30 de junho de 2020

ANTES E DEPOIS DO FIM DO MUNDO


Se em 2012 o mundo não acabou para muitos, como profetizavam, agora em 2020 para muitos tem desabado, acabado para uma grande parte de nós. Com a pandemia planetária é tempo de nos enraizarmos e olharmos para o céu, para o espaço sideral reconhecendo que somos só um pontinho minúsculo nesta imensidão. Contemplando em silêncio e refletir se realmente queremos continuar a viver uma vida que é imitação dela mesma: correndo loucamente dum lado para o outro para cumprir tarefas, empurrando e pisando os nossos companheiros sem nos apercebermos ou nos apercebendo mas naturalizando, fazendo de conta que não aconteceu nada. E até acreditarmos que somos de bem e do bem.
Não, ainda não é o fim do mundo enquanto tivermos cientes que podemos superar um pouco mais as nossas limitações e crenças limitantes, Que agradecer a oportunidade de encarar o medo e a incerteza de frente, sabendo que estas falam rápido junto ao nosso rosto. Respeitá-las, mas não sucumbir com essa intimidação. Honrar quem está vivo e quem já atravessou para outro plano seja através do silêncio ou da poesia duma criação artística, dum gesto simples de nos sabermos eternos e mortais.
VIVA A VIDA E ALEGRIA DE NOS QUEREMOS BEM!
A Piu
Br 30\06\2020



imagem: Espetáculo ' Um Buraco no Céu' Teatro Balbuínas, na foto Ana Piu

domingo, 28 de junho de 2020

CUCURRUUUUUU PIU PIU PIU - A NARCA, UMA COROA PORTUGUESA NU BRAIZIULE

Eu não faço tensões, por ora, de voltar a viver em Portugal, por ora. Mas mesmo que quisesse, por ora, por ora não seria possível porque as fronteiras estão fechadas. Por ora nenhum ente querido "foice" com o covid e espero, para lá do por ora, que ninguém se "vaia" com esse bicharoco marafado.

Mas bicharaco marafadão é aquela bactéria ideológica chamada " facismo"... Não sei porque o "s" cai, mas já ouvi e li: " Morte aos facistas!!!" Oooops, quem são esses? Só para saber. E desejar a morte a alguém não será pesado demais e resolve alguma coisa?.... Cri cri cri Ah! Fascistas! Então, 'tá bem! 'Tá bem não! 'Tá mal! A esta altura do campeonato alguém achar que é demais alçar a mãozinha como se fosse romper em diagonal uma nuvem?!!... O que é um fascista? Também gostaria de saber o que cada um que é contra e a favor sabe, ou acha que sabe, o que é tal denominação.

Da minha parte não faço questão nenhuma de ser amiga do peito de nenhum, mas também não lhes desejo morte e sim cura.

Ouvi "dezer" por portas e travessas que em Lisboa ( na rua!!!!)  fizeram há coisa de ontem ou antes de ontem uma manifestação dum tal partido que se chama " Chega" , liderado por um tal de André qualquer coisinha. Sei que quando soube da sua existência estava em Ilha Bela e um conterrâneo falou dele, apoiando-o, mas quando a conversa evolui e eu percebi que ele é aquele típico do contra bem na vida que tudo que não é de direita é comuna zzzzzzzz, mas  um tanto revolucionário  na época da crise financeira e desemprego em Portugal em que era contra o governo, na altura de direita - 2007/ 2016 ou 17. Já não lembro bem os anos porque já tinha desligado de Portugal, deixando  para quem se deslumbra com o parque temático, isto é com o sardine & bacalhau park, que Portugal se tornou. Santos da casa não fazem milagres e sinceramente também acredito que todo e qualquer estrangeiro vem sempre dar uma lufada de ar fresco aos lugares. Muito sinceramente acredito nisso, como tal Portugal para mim ainda é o meu país natal, o lugar que me viu nascer e crescer, que tantas vezes me deixou frustrada e neurótica com a neurose coletiva, o passivismo e aquele de sonseira de " ai não somos racistas nem machistas" - ser passivo não é o mesmo que pacifico- mas por ora não tenho interesse em rever chuchadas, como neo faxixis a saírem à rua, por exemplo. Aqui no Brasil, também saem, mas tem tanta gente para me enturmar neste imenso de território de mil re existências que só desejo cura moral e espiritual para todos nós sem desejar a morte a ninguém e sim consciência expandida.

Bom!...Mas a  certa altura senti-me a modos que "ofendida", incomodada, com o entusiasmo brasileiro de ir para Portugal lá por 2018, 2019.... Uma daquelas piadas de gosto duvidoso em que me sinto chamada de burra. Às vezes acontece....Ihihih Faz parte de sermos estrangeiros viajantes e cidadãos do mundo. Depois entendi que não era para personalizar, pois cada um e cada uma acolhe a informação mediática que mais lhe convém para os seus interesses individuais. Como o querido companheiro Pepe Mujica alerta: "Vivemos numa época de individualismo. Há que romper com isso e com a lógica de consumo!"

Por outro lado também acredito que cada um e cada uma de nós está no lugar onde deve estar, acolhendo o aqui agora. De facto, eu sinto-me muito mais em casa neste imenso Brasil que me deslumbra e assombra com a sua luz solar tropical do que em Portugal que me aperta, começando pelo tamanho do território e sua densidade populacional assim como a mentalidade apertadinha sem ginga que atravessa uma grande parte do pessoal.Não todos claro! E você querido leitor e leitora que adora ler, sei que está em vias de emancipação! Dá cá mais cinco! Porém desejo sinceramente que os "estrangeiros" dêem um up nesse fado que já não se aguenta! Eu não dou conta de tanto choradinho e fatalismo muitas vezes de barriga cheia, fico com os pulmões cansados meio que descompassada e descompensada.. Gosto do sol mediterrânico, mas fico muito mais alegre com a re existência dos trópicos, aí encontro poder de manobra. Cuidem bem de Portugal que conheço quase como a palma da minha mão, mas que sempre chego num lugar do tipo " parece que não sai da cepa torta duma mentalidade de cantinho da Europa que um dia já foi dono dos outros....".Enfim... É isso que sinto por ora. Não é uma imposição de ideias e sim uma exposição do mais profundo da essência do meu ser. Por ora envio " beijus" e  abraços que dispensam o rótulo de gourmet ou exótico.

Por ora é tudo. Não desejo a morte aos "facistas" nem aos "faxixis" e sim uma vaia como quem diz: "Vaia p'ra casa e fica lá a pensar na vida com pés e cabeça e também coração! Cresce e aparece! Faz-te um homenzinho! Uma mulherzinha! Páááá! Gente de verdade sem orgulho no que é rasteiro! Fica em casa mazééééé"

T
A Piu
Bolhão Geral Zen Kampinas SP 28/06/2020










SORORIDADE TEMPORARIAMENTE INTERROMPIDA

A mulher julgou a outra sem saber da missa a metade. Surtar não faz parte dos planos mulher sagrada: " Ai  como ela não está suficientemente espiritualizada e grita com os homens, principalmente quando bebe mais um pouco! Eu gosto de beber mas eu comporto-me. Sou uma mulher selvagem bem comportadinha. Quem diria que essa aí medita! Diz ela! Eu não sei o que é ter filhos, mas essa aí!! Só por zeus! Vou mas é abraçar-me ao meu carro!"

A mulher não ia à missa nem ao culto, nem a que julgou nem a que foi julgada. A mulher sagrada, que assim se definia, em volta da fogueira queimava palo santo; o mesmo palo santo que defumava a casa quando as energias estavam pesadas, segundo ela energias de fora. Era necessário colocar um cacto para afastar aquela mulher cujos uivos eram duma loba que quer amamentar os seus filhotes mas destoam à sua cantoria matinal, linda, maravilhosa, resplandecente repleta de sacralidade. A outra, a bruxa da verruga no nariz que mesmo no enlaço do caminho do coração trazia dores antigas muito antigas, mesmo antes de ter nascido. Assim como a mulher sagrada que corretamente avaliava o que estava dentro do decoro e da capacidade do seu controle, fugindo do imprevisto, do inusitado, do uivo de " não pisam mais os meus calos".

Certa vez a mulher loba uiventa uivou, uivou por todas as minas que se diziam manas, mas que  na primeira curva faziam de conta que não tinham percebido e assim eram  todas ouvidos, reverenciando, os machos alphas, que até davam aquele ar democrático nato no sentido lato democrático do litoral. Mais vale estar na mão dum macho alpha que não largar a mão da mana. E toda ela era MPB e saias brancas rodadas, desprezando as brancas como ela e namorando as café com leite novinhas porque até fica bem ao aparato da bandeira. Mas na Hora H, na Hora Do Vamos Ver A Irmandade Feminina, a mina sagrada  ficava receosa. Em algumas situações diante de machos alpha tentava mostrar que realmente as mulheres são umas histéricas e ela precisa de proteção. Uma mina receando uma mana que uiva que quer ser vista, escutada, respeitada e apoiada.

Hoje a mina mana loba selvagem entende e confirma que os recortes e consciência de classe, principalmente no Brasil, definem até um certo ponto o grau de sororidade entre as minas e as manas. Ser mulher sagrada que olha para dentro mas não olha ao redor ainda está a algumas léguas de ser mina mana.


A Piu
Bolhão Geral Zen 28/06/2020

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Especialidade da casa: UM IRMÃO SALVA OUTRO IRMÃO

Desde os tempos mais remotos existe aquela história que um irmão tirou a vida a outro irmão. Tipo Abel e Caim, sendo que essa história quando foi escrita já existia na oralidade. No tal do boca a boca. Agora imaginem as voltas e reviravoltas que essa história não terá tido até ter sido escrita!? Atravessou rios, montanhas, florestas, mares, savanas, saltou por cima de pirâmides e até chegou ao lá do lá do lá. E isto, pessoal, malta, galerada, há milhares e milhares de anos!

Porque um homem quer matar outro irmão se quando o pode amar incondicionalmente, mesmo quando este não acerta no alvo da amorosidade? Porque um irmão haverá de disputar com outro irmão e serem rivais? Olhem só, pessoal, galerada, malta isto não é um discurso de irmandade universal tipo: " sigam-me que eu tenho o mapa do caminho da luz!" Nãããã! Cada ume terá de iluminar as suas próprias sombras e eu tenho tantas que quem sou eu para pregar aos peixinhos tipo do estilo: Amai-vos uns aos outres e que a tristeza nem a raiva não é politicamente correto nem está contemplado no sagrado feminino  da mulherada bem nutrida  e que pode realizar os seus sonhos sem sobressaltos nem terceiros para criar e nutrir?!?! Essas assustam-se com um uivo, mesmo que leiam: " Mulheres que correm com os lobos". Principalmente quando uivo vem duma mãe. 

Para mim alguém especial é quem ama incondicionalmente um mano, uma mana, une mane mesmo quando agem duma forma que nós não concordamos ou não entendemos temporariamente. Mas amar alguém  incondicionalmente é tentar entender e quando não entendemos respiramos fundo até conseguir entender. Quando respiramos fundo e tomamos isso como prática olhamos as nossas sombras e logo já não julgamos os outros 
( adoro: " e logo já não" ! VIVA A LIBERDADE DE EXPRESSÃO DE ORALIDADE E ESCRITA !!!) , porque entendemos o quanto estávamos ou estamos confusos e que há muito trabalho a fazer, tranquilizar a nossa respiração e coração é uma tarefa para a vida inteira. O auto conhecimento não será a nossa missão de vida que atravessa o planeta há milhares e milhares de anos?


O que é uma guerra? O que é uma disputa? Uma rivalidade? EGO! OR-GU-LHO. GA-NÂN-CIA. CE-GUEI-RA. A disputa de território e recursos naturais penso que é a das disputas mais antigas que criam conflitos e guerras, assim como disputas de mulheres, moeda de troca,  quando as sociedades se tornaram patriarcais. Esse atores sociais já se questionaram que as mulheres têm vida e vontade própria? Já lhes perguntaram o que elas querem e escolhem? Uma pergunta para quem ainda acredita na democracia, na reverência à Pachamama. Uma democracia machista e misógina não é democracia e sim faxixi...

Um território expulsa as pessoas quando estas não a respeitam, quem não estará atento a esses sinais de cair fora pode sofrer tragédias até. EU TENHO ESTA TEORIA !!! Quem não trata a mãe terra nem o corpo , alma e espírito da mulher, enquanto feminino que gera vida e a usa e abusa e  compra e vende está fadado ao infortúnio. Tá bom! Podem achar que é viagem. Mas fica a reflexão às dezanove e vinte e nove de dois mil e vinte no recolhimento da pandemia planetária. Fica esta teoria para refletir.

Aqui deixo um poema dum poeta português branco que esteve do lado do lado de cá onde estamos todes juntes porque  nos queremos bem  uns aos outres e nos ajudamos a levantar quando quase ou até mesmo sucumbimos.

VITÓRIA AOS ABRAÇOS DE IRMÃOS COM AS SUAS PULSAÇÃOS NOS SEUS CORAÇÃOS! Desertemos da guerra, da disputa da rivalidade, rumo às florestas, oásis, rios e mares límpidos, despoluídos!

A Piu 
Campinas SP Brasil 26/06/2020

“Canto do Desertor” (Luís Cília)
Oh mar… oh mar…
Que beijas a terra,
Vai dizer à minha mãe
Que não vou p`rá guerra.

Diz, oh mar, à minha mãe,
Que matar não me apraz
No fundo quem vai à guerra
É aquele que a não faz.

Vou cantar a Liberdade,
Para a minha Pátria amada,
E para a Mãe negra e triste
Que vive acorrentada.

Mas a voz do nosso povo,
No dia do julgamento,
Te dirá a ti, oh mar.
E dirá de vento a vento,
Quem são os traidores,
Se é quem nos rouba o pão
Ou se nós os desertores
Que à guerra dizemos «Não».





Luis Cília, natural de Angola, mas a viver em Lisboa desde os 16 anos, torna-se o primeiro cantor de intervenção, no exílio, depois de se refugiar em Paris, em Abril de 1964, desertor do exército português.
Cília escreve a primeira canção declaradamente contra a guerra colonial. Grava-a, nesse ano de 1964, no álbum Portugal-Angola- Chants de Lutte. Chama-se Canto do Desertor.
Como é óbvio, não se ouvia em Portugal, a não ser em reuniões clandestinas ou em convívios universitários
No mesmo álbum, em que interpreta canções com letras de alguns poetas portugueses, como Manuel Alegre, José Gomes Ferreira ou Rui Namorado, Luís Cília canta outro poema contra a guerra, escrito pelo açoriano Jonas Negalha.

quinta-feira, 25 de junho de 2020

ESSE PROFUNDO CAMINHO QUE VAI DE MIM PARA O OUTRO - migrações

Hauke Vagt
O que faz um alemão ou um holandês querer morar em Portugal? O que faz um mexicano quer morar nos EUA? O que faz um brasileiro querer morar em Portugal? O que faz uma portuguesa querer morar no Brasil? Migrar é um desafio, diria até um ato de coragem que se acentua com maior ou menos necessidade de trabalhar para ganhar a vida e por isso se curvar a qualquer coisa ou , mesmo com todas as dificuldades, seguir o seu propósito, a sua missão de vida; termos tão em voga.

Dos amigos alemães e holandeses de longa data que conheço e moram em Portugal há décadas é porque gostam de sol e do país não ser tão industrializado e assim poderem viver uma vida um tanto ou quanto mais alternativa. Já um mexicano querer morar nos EUA, além de ter que encarar a xenofobia por ser hispânico terá de encarar uma lógica norte americana consumista e capitalista que ainda deve ter medo dos comunas e dos estrangeiros vindos de países que eles consideram inimigos. Sim porque os EUA têm uma capacidade de criar inimigos de estimação que é uma beleza!  Embora tudo leva a querer que existam nichos alternativos. Já um brasileiro querer morar em Portugal haverão mil e um motivos que dão vários textos segundo o que tenho observado e vivenciado ao longo destes anos  em que me relaciono com o Brasil, com brasileiros e que moro há 8 anos no mesmo território. Uns irão para trabalhar, mesmo que explorados ou eventualmente serão mais valorizados do que os nativos. Sim, porque não? Santos da casa não fazem milagres. Eu já vi com estes olhinhos que virarão pó estrelar. Eu já observei, mas também acredito que no final das contas está tudo certo. Nós estamos onde realmente devemos estar, de preferência onde criamos raízes e encontramos canais onde parcerias prósperas se realizam com valorização mútua pelo trabalho. Outros brasileiros irão para Portugal porque afinal de contas Portugal é Europa e isso é chique estar na Europa, mesmo que desconheçam a luta dos trabalhadores e o significado do que é precariado. Mas isso também não interessa porque eles já têm o deles ganho e não precisam de procurar emprego em Portugal e sujeitarem-se a humilhações ou a qualquer coisa.  Os mesmos que ficam muito surpresos porque é que uma portuguesa ou português queira morar no Brasil visto um passaporte vermelho da união europeia abrir portas para a dita Europa. Outros brasileiros irão para trabalhar e fazer o que os portugueses não querem. O clássico da migração.

Bom, cada pessoa terá as suas razões por escolher estar num lugar e não em outro. Da minha parte encontro no Brasil um potencial de conhecimento e sabedoria que vai para lá do consumo, do conforto pequeno burgês e do status. Só gostaria profundamente que cada um dos países que um estrangeiro elege para a sua nova casa fosse recebido sem preconceito e que esse mesmo estrangeiro não traga na bagagem esses mesmos preconceitos  e ideias preconcebidas em relação ao país em que chega e a quem lá mora.

Esta ilustração é dum querido amigo alemão que faz um trabalho incrível com a sua parceira Gui, que no caso é portuguesa. Para mim ele ilustra com muito humor a alma portuguesa, principalmente lisboeta! Repleta dum tempo antigo e moderno com muitos monstros, fantasmas e sombras nessa cidade que é Lisboa. Encantadora, melancólica, gozona, marialva, triste e trigueira, com os engodos, uns maus olhados diria.... Ihihih Mas esse é o meu olhar de quase lisboeta, porque nasci na dita mas a minha infância e adolescência foi no quintal de Lisboa, vindo só a residir já na idade de jovem adulta ou de adulta jovem. Sempre na batida de 4ever young, como manda o figurino da maioria da minha geração que cresceu depois dos chaimites saírem à rua com cravos vermelhos em punho em nome da paz e da liberdade.  Essa é a parte bonita da história de Lisboa. Essa trago-a no coração, dispensando o desrespeito neo liberal pelos trabalhadores até então. Essa é a parte que gostaria que os brasileiros se informassem melhor quando vislumbram um emigrante português ou portuguesa e os trabalhadores portugueses e portugueses no seu país de origem. Porque uma segurança social, são conquistas dos trabalhadores e não das explorações coloniais. Aliás, na época do fascismo português a maioria os trabalhadores portugueses passavam fome e não tinha direitos trabalhistas. Fica o recadinho para os esquerdas gourmet brasileiros, principalmente os mais jovens, mas que acham que têm o mundo na mão e que ainda vêm dar lições de moral. Chuac <3 Em suma, um exercício de sensibilidade e  também inteligência.  Nós andarmos informados por várias fontes, principalmente estudar História Nacional e Internacional de preferência libertária, e observar com olhos de escutar permite-nos desenvencilhar de ideias feitas e erróneas que obstruem o caminho que vai de mim para o outro.

A Piu
Bolhão Geral Zen Kampainas ESSE PÊ 25/06/2020