segunda-feira, 8 de abril de 2013

SOBRANCELHA POUSADA


Dezenas, centenas, milhares e milhares de rostos que se repetem na esperança de serem. Milhares e centenas e dezenas de corpos escolhidos a dedo aguardando efémeros aplausos. Aplausos diluídos no pó dos segundos. Aplausos venerados de um ideal desejoso de algo mais, que esmorece no preciso momento do toque. Rostos de olhar vidrado numa fama rápida, perpetuada em cartazes guardados entre as finas pratas que embrulham chocolates com sabor a sabão. Corpos lavados de profundas dúvidas. Corpos guardados, escondidos de seus rostos de olhar perdido no meio de centenas de milhares de aplausos. Sorriso petrificado desejando um abraço generoso, um aplauso intimo, um toque que desfaça o feitiço do glamour vidrado e frágil. Uma sobrancelha espera pousar sobre a simplicidade da expiração. Aquele rosto já não é aquele sorriso. Aquela graça já não é aquele corpo. Aquele ser adquiriu outra graça, outra dimensão no silêncio dos aplausos. No silêncio do glamour milhares e milhares, centenas, dezenas de olhos ávidos de efémero aquele ser deixou de provar o seu estar. Diluído no pó dos micro segundos pousou as sobrancelhas sobre o peito e descansou.

A piU
Br, Abril 2013
Fashion Girls
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rcn

PARA LÁ DO LÁ



Os seus pais tinham vergonha de seus avós. Vergonha da sua pobreza. Vergonha da sua própria pobreza. Os pais sentiam vergonha de onde vieram, então cobriam-na com finas talhas douradas que às primeiras chuvas logo cediam, logo estalavam.
Os seus avós diziam-lhe para nunca esquecer as suas origens. Que o pior é quando se sobe e pisa-se aqueles que achamos que estão abaixo. Pior do que quem nunca teve de subir, dizia a avó.
Zeribeu não podia negar as suas origens. Lábio grosso, olhos rasgados, pele misturada ora colorida, ora descolorada conforme os raios de sol.  Zeribeu sentia vergonha de ser burguês. Era contra os burgueses. Era contra si. Uma voz mansa e macia veio pousar no seu ombro: "Mas porquê toda essa história de burgueses e anti burgueses? Isso já passou à história! São histórias para boi dormir. Vãs distrações!" Naquele momento Zeribeu teve vontade de amarrotar aquela voz macia e mansa, brandamente provocadora.. Abaná-la até não poder mais. Olhou. O olhar da voz não era ameaçador. O olhar da voz esboçava uma tentativa de olhar para lá do lá. O rapaz olhou para si. Olhou para a voz macia com algumas arestas. A sua boca fez um esgar. Os ombros estremeceram, a barriga dobrou-se. Uma grande gargalhada atravessou tudo. Atravessou para lá do lá. Depois olhou para si e para a voz:" Sim, é por aí. Sou o que sou. Sou quem sou aqui e agora. Sou como estou e sou aquilo que faço. Sou e não sou. Não sou mas estou. Estou e sou, fazendo. Agindo. Interagindo" Depois, esticou os braços e com as pontas dos dedos tentou tocar para lá do lá.

A piU
Br,  Abri 2013

domingo, 7 de abril de 2013

JEO VÁ QUE JÁ SE FAZ TARDE

Um qualquer num domingo de manhã depois de terem batido à porta de seu leito - .............. sim..... compreendo... sim..... claro. Isso onde?

Jeo- No Eden.

Um qualquer- Eden? Fica mais propriamente onde?

Jeo- Se virar a revista tem o mapa.
Um qualquer- Um mapa? Um mapa com indicações para chegar ao Eden?

Jeo- Não. Um mapa do próprio Eden. E se comprar esta revista que fala sobre a salvação você tem direito um pequeno lote no Eden. Estará salvo, porque não tarda nada e isto vai tudo pelos ares.

Um qualquer- Tou a ver... Tou a ver... E dá para comprar essa revistinha quando isto for pelos ares? Logo logo a seguir. Eu posso lhe dar o meu contacto telefónico.

Jeo- Aí já é tarde. O mundo já acabou...

Um qualquer- Então eu proponho fazermos um troca. Eu tenho ali umas revistas ana....

Jeo- Desculpe.... Desculpe, mas tenho de ir... Já vejo tudo pelos ares ali mais à frente.

(...) (...)

Um qualquer- Eram só umas revistas anar.... Umas revistas da Ana!... Era só uma troca....

A piU
Br, Abril 2013

sexta-feira, 5 de abril de 2013

REFLEXÕES REFLEXIVAS ACERCA DO QUERER SER QUANDO SE FOR GRANDE



Especialmente a especialização coloca-me especificamente num não lugar, criando assim fluxos e tensões. Especializo-me, então, nesse não lugar criando outras perspectivas especializadas na não especialização. Especificamente a não especialização é algo que especialmente me assiste. Logo, especializando-me na não especialização torno-me alguém especialmente especial a uma dada espécie de especifização. Não me especializando não significa de todo que tudo e nada passem a que tudo seja nada e nada seja nada e tudo simultaneamente. Isto é, que não haja um critério, um código, um linguajar percepetivel. Não é disso que se trata. Em suma, não me especializando abro todo um leque para um não lugar que passa a ser um lugar especifico não especializado.

foto: Anita pequenita vai ao não lugar ou Anita Piuzita no não lugar ou Anita avança num lugar que é não mas também é sim que também é mais ou menos

A piU
Br, Abril 2013

quinta-feira, 4 de abril de 2013

O VERDADEIRO E O FALSO

O falso pergunto ao verdadeiro:
- Porque me consideras falso?
- Porque não vejo o teu olhar.
- E não o sentes?
Aquele que verdadeiro se considerava calou-se. O falso que nada se considerava continuou:
- Eu sinto o teu olhar. Mas sabes o que acho de ti, que te consideras verdadeiro?
O verdadeiro, por se considerar assim, continuou calado. Aquele que era considerado falso, apesar de assim não se considerar, sentia aquele silêncio com algum desconforto. Gostava de dialogar. Há silêncios plenos de comunicação, há outros silêncios que são silenciamentos, fugas para parte incerta.
- Sabes o que eu acho de ti, que te consideras verdadeiro? (...) (...) Não acho nada. Prefiro que achemos juntos alguma coisa se é que é para achar algo ou simplesmente procurar sem nunca achar. Sem nunca encontrar. Sè que no sè nada. Mas procuro saber. Procurar em lugares improváveis outras verdades. Verdades momentâneas ou verdades que sempre lá estiveram, escondidas por brincadeira. Só pelo simples prazer de dar prazer a quem procura.

A piU
Br, Abril de 2013

CRIANÇA ANARQUISTA

Well I´m just out a school
like I'm real real cool
Gotta dance like a fool
Got the message that I gotta be
A wild one
Ooh yeah I' wild one

Iggy Pop, Real Wild Child

E penso. Repenso. Corro mais um pouco e paro. Uma corpo fica parado num dúvida de algo que antes era óbvio. Ingenuamente achava que era óbvio o que não é óbvio para muitos.Uma vez mais um balde de água fria. Ingenuamente achava que estar na escola e aceder a uma série de informações libertar-nos-ia para tornar este ridículo mundo mais respirável. Mas como a ridículitude é uma roupagem que até me acenta bem!... Gosto de me olhar rir-me do meu próprio ridículo. Mas não é um ridículo qualquer! Não! Um ridículo que tenha algo de ingénuo, que tenha algo de um impudor inocente. E o que é a inocência? Bom, agora estou com preguiça para citar Rousseau. Teria de ir conversar primeiro com ele e agora estou aqui à conversa para quem tiver paciência de me ler, nestes tempos de excessos. Excessos de informação, excessos de mercadorias, excessos de emotividades muitas vezes vazias de emoção. 

Bom, mas vamos direito ao assunto já que é no meu blog é no grupo que criei Sopa na Mosca que nos encontramos. Andando eu que nem mosquinha esvoaçadeira por blogs, grupos facebokianos e afins enfiando o nariz onde supostamente não sou chamada confrontei-me com umas baldadas de água umas vezes mais frias outras mais mornas. Confrontei-me com grupos com anseios de se organizarem enquanto movimentos sociais. Confrontei-me com grupos académicos e intelectuais, que sendo reflexo de toda esta imensidão que é o planeta, terra existem pessoas com diferentes perspectivas do que é ser e e estar nesta terra imensa que é o planeta. Ora umas acham que são uma coisa e agem de um outro jeito, outras tentam agir conforme falam, outras não falam e agem, outras só falam mas não agem e há outras que nem falam nem agem. Mas destas últimas questiono-me se o coração delas ainda bate e se o lábio inferior não estará roxo.

Há uns dias atrás entrei num grupo, que não vem ao caso identificar, e sim reflectir em cima do acontecimento. Entrei num grupo e um rapaz, um ser pensante e talvez atuante chamava a atenção para a importância de agir segundo os nossos princípios. E como grupo especializado que era em Antropologia sublinhava a importância de sermos coerentes na prática com aquilo que defendemos na teoria e de não nos esquecermos da nossa criança anarquista. Deixá-la respirar dentro de nós. 
Abelhuda como sou, agradeci num comentário ao rapaz. "Obrigada. Obrigada mesmo. Obrigada pelo seu texto e fazer-nos sentir que não estamos isolados." Um dia mais tarde quis voltar ao texto e copiá-lo para mim com a devida identificação autoral. Oooops já não encontrei a publicação. Eta lé leca! Eu já vi este filme! O melhor é partilhar as minhas inquietações num grupo mais restrito não vão bloquear-me outra vez o blog e deixar de ter acesso a mais um grupo académico. Sim, porque a mim interessa-me aceder a publicações que considero de valor e nem todo o pessoal académico vive numa vida quadriculada. Mas os redondos ou com desejos a redondos que tiverem de se encontrarem, encontram-se.

Depois, por brincadeira alterei o meu prefil. Assim como assim, quem me conhece sabe que é brincadeira. Cachondeo. Ironia. Sarcasmo. Trelé lé. Lu lu. Alterei o meu perfil e passei a viver no Texas depois de ter nascido no Alasca e estudado numa escola de Rock Punk.

Mais tarde entrei mum outro grupo académico que ditava uma série de regras. Uma delas é que só se permitiam publicações de interesse académico. Perguntei-me quais os critérios. Depois que não valia promoções pessoais. Voltei a perguntar-me sobre os critérios. Será que este texto que agora escrevo é promoção pessoal? Eu considero que não, mas há quem possa considerar que sim. Depois quando veio a parte da não permissão de perfis falsos logo pensei:"Já fiz.... m....!" JÁ FIZ DAS MINHAS! Seus malcriadões que pensavam que ia dizer uma asneirola com merda! Oooops já disse!...

Ora o que é isso do perfil falso? E se eu disser que estudei na Cambridge School e que sou do Canadá e que vivi na Patagónia entre os indígenas? Quem vai saber? Desde que a abordagem no diálogo tenha o respeito contemplado pelas visões distintas deste ridículo imenso mundo... Não há lugar para todos? Ou tudo tem que ser muito sério e compartimentado. Ou conhecimento não será a troca entre saberes e viveres? Ou este viver tem de ser sempre à trolitada onde se confunde rigor com rigidez.

Quanto ao menino Iggy Pop, de quem muito admiro, aquela última parte do clip mais parece um menino mimado cheio de guitarras lá por casa. Acho que é isso, por vezes os mimados que também são crianças anarquistas tem medo das crianças anarquistas que não são mimadas, mas que de vez em quando até são e que abanam os meninos mimados que até gostavam de ser crianças anarquistas. ufff como categorizar este enleio todo? 

A piU
Br, Abril de 2013


Iggy Pop - Real wild child (Olympia)


http://youtu.be/YRPkiHd0Rzc

quarta-feira, 3 de abril de 2013

O PONTO DE INTERROGAÇÃO ou O CHEFE DOS OUTROS DEDINHOS



Tou aqui com uma dúvida se é normal ter dúvidas. Duvido, todavia porém da normalidade. Contudo, no entanto hoje acordei duvidando de mim. Duvidando das minhas dúvidas. Mas o pior é que hoje ao me levantar dei por mim sem dúvidas. Olhei-me ao espelho e nem uma dúvida no olhar. Vasculhei as rugas de expressão e qualquer preguinha que surgisse timidamente do papo, antes de chegar ao pescoço. Mas nada! Nem dúvida, nem preguinha, nem papo. Tudo estático. Tudo certinho sem dúvidas. Por momentos respirei de alívio e conclui: "Se está tudo estático é porque vai ficar sempre assim como num retrato emoldurado." Saí de casa reconfortada. De repente parei. Senti um grãozinho de terra instalado entre a tira da sandália e o dedo chefe dos outros dedinhos. E agora perguntarão quem é esse dedo chefe dos outros dedinhos. E estará aí uma dúvida que passa a ser minha se eu não tivesse já resposta: O dedo chefe é o dedo pequenininho, o mindinho, aquele que nas horas de aperto, de quedas e catástrofes gravitosas se agarra ao solo, ao ponto fixo lembrando a nossa semelhança com beduínos, macacos e saguins. Hoje finalizo o dia com a dúvida se voltarei a ter dúvidas. Sacudo os bolsos e encontro um ponto de interrogação todo amarrotado. Amanhã de manhãzinha logo logo pela manhã, se o sol estiver bem disposto vou estender esse ponto amarrotado. Talvez precise de algum calor e ar fresco. Um alento para começar o dia logo logo de manhãzinha.

A piU
Br, Abril 2013